16 de outubro de 2011

Claudius.



Os olhos não deixavam margem para dúvidas; os passos perdidos na melancolia também não. Claudius, não escolhia o caminho que percorria cegamente - as suas pernas é que, de alguma forma, eram conduzidas pela força do alcatrão rodoviário degradado.
Era noite, típico cliché para histórias dramáticas de indivíduos afogados numa pequena bacia de problemas (não necessariamente um mar deles). Não, isto era sério, tão sério que nem a dor latejante nos pés era capaz de chamar a sua atenção para a distância que já percorrera.
As várias picadas que levara não eram capazes de o matar na hora, mas aos poucos o veneno começou a apoderar-se da vida - não do corpo. Menos uma pessoa, mais uma pessoa nas nossas vidas. Que diferença assim tão grande poderia fazer, afinal?
Virou para uma pequena ruela, à direita, em tudo similar à que se afigurava no lado oposto. Perguntou-se porquê aquela, aleatoriamente, e as rodas mecânicas do raciocínio encaixaram na perfeição e começaram a rodar: também com as pessoas é o acaso que decide e a ilusão que nos mantém na rua escolhida. A ilusão é o apagar dos candeeiros da cidade, que torna todas as ruas turvas e escuras.
Podemos escolher a cor, a quantidade, o modo de administração e até a legalidade, mas no fim de contas, qualquer relação é uma droga - deixando-nos agarrados às veias do amor e do hábito, assim que o fornecimento acaba. Leva-nos ao fim, não necessariamente da nossa presença móvel na terra mas do nosso fim enquanto "eu" e "tu".
Se assim é, porque não escolhemos criteriosamente as pessoas que tanto nos moldam como se de plasticina fôssemos feitos?
Embargado pela conclusão, Claudius virou à direita após a grande avenida da cidade. Sem razão aparente.

Ali, aqui... Perto de mim.


Frases, aquele sentimento, este olhar.
Residias longe, rodeavas o ali e vieste acabar aqui. Foi um misto de histórias, de contra-tempos, de dificuldades e ilusões. Soavas baixo, não de maneira sobranceira mas apenas de igual modo. Essa voz que se entrelaçava em cada palavra que soava expedia compaixão e sofrimento, transformando miraculosamente pequenos gomos de palavras em verdades absolutas. Essas eram as tuas verdades, a tua carreira, a tua história, a tua eterna vida. Aprazível e agradável era a tua presença, esse teu jeito de encandear e de fazer com que te encadeassem, era tudo de louvar. Louvor esse que brotaria das efémeras redondezas e acabaria por pairar sobre o “aqui”.
Não sei ao certo o que ainda pretendes, mas eu já o sei...

15 de outubro de 2011

Lembranças.



Enquanto te vejo dormir, pergunto-me se será possível. O vento levou contigo os viajantes incómodos, áridos e poeirentos que faziam bater o meu coração. Ao mesmo tempo, como criança que desliza lentamente por trás de nós para nos assustar e corre quando está perto, assim me assolou a essência que teimava em escapar-se pelas minhas mãos soturnas e pouco esperançosas.
Não me resta outra solução que não fitar os teus lábios finos de banda desenhada, os teus olhos de doce lunática, os teus cabelos de revolto castanho, o teu corpo torpe e esguio. Faço-o como se o amanhã os despisse dos adjectivos e os deixasse apenas lábios, olhos, cabelo, ordinários e vulgares. Olho convencido de que a luz não vai nunca voltar a espreitar pela fresta da portada da janela e ranger mais uma vez um sonoro “bom dia”.
Mas vai. Há tanto para fazer lá fora… Fora de nós, num mundo sem pausa ou paragem possível. Felizmente, os momentos são efémeros, mas a memória é bastante poderosa. Por causa dela, aqui estou, sozinho e longe, a lembrar-me do quanto te amo.