15 de outubro de 2011

Lembranças.



Enquanto te vejo dormir, pergunto-me se será possível. O vento levou contigo os viajantes incómodos, áridos e poeirentos que faziam bater o meu coração. Ao mesmo tempo, como criança que desliza lentamente por trás de nós para nos assustar e corre quando está perto, assim me assolou a essência que teimava em escapar-se pelas minhas mãos soturnas e pouco esperançosas.
Não me resta outra solução que não fitar os teus lábios finos de banda desenhada, os teus olhos de doce lunática, os teus cabelos de revolto castanho, o teu corpo torpe e esguio. Faço-o como se o amanhã os despisse dos adjectivos e os deixasse apenas lábios, olhos, cabelo, ordinários e vulgares. Olho convencido de que a luz não vai nunca voltar a espreitar pela fresta da portada da janela e ranger mais uma vez um sonoro “bom dia”.
Mas vai. Há tanto para fazer lá fora… Fora de nós, num mundo sem pausa ou paragem possível. Felizmente, os momentos são efémeros, mas a memória é bastante poderosa. Por causa dela, aqui estou, sozinho e longe, a lembrar-me do quanto te amo.

1 de outubro de 2011

Desabafo.



Vou confessar que não está a ser fácil suportar tudo isto, toda esta pressão em que as pessoas me colocam. Por vezes, tenho vontade de fugir, de ir para um lugar escuro, onde só eu soubesse onde é, um lugar para eu ficar sozinho comigo e com os meus pensamentos. Quem me vê, acha que estou feliz, que nada está a acontecer comigo, mas isso é porque apenas me conhecem ali, só durante uma parte do dia, mas depois quando eu volto para casa, as tardes solitárias, as noites insuportáveis? Eles não sabem o que eu sinto. Tento resolver esse problema sozinho, mas parece que quanto mais eu o tento resolver mais problemas crio. Apareço sempre com um sorriso no rosto... Mas ninguém foi capaz de olhar no fundo dos meus olhos e ver o meu sofrimento. Sim, eu corto-me, eu arranho-me, mas essa é a única saída que eu encontro para escapar dessa dor que me contamina emocionalmente. Por mais que doa, que fique marcas, eu prefiro essa dor física, do que a dor sentimental. Pelo menos até ao derradeiro corte, até à última inspiração, até à última lágrima.

2 de setembro de 2011

O Passado e o Presente.



Deito-me para dormir. Mais uma noite em que o sono foge, como um sábio da ignorância. É tão difícil descansar ultimamente. Aquelas palavras atormentam a minha cabeça. A tristeza instalou-se de tal maneira no meu peito que desencadeia constantemente uma avassaladora inundação nos meus olhos. Em cada dia que passa fico mais sozinho. Estou cada vez mais a afastar-me do mundo. Mais que nunca, agora todos me olham como quem olha para um monstro abençoado pela maldição da diferença. Vejo defeito em tudo o que outrora fora motivo de um sincero e verdadeiro sorriso no meu rosto: a lua já não brilha tão intensamente, a comida perdeu o sabor, o pôr-do-sol já nada mais significa que um ritual rotineiro tal como tantos outros, os meus sonhos são agora pesadelos... Cada vez mais me torno num corpo sem alma, um corpo a quem cortaram os membros e uma alma à qual impossibilitaram de flutuar na imensidão do vazio. Acho até que esqueci como viver; agora só há lugar para uma sobrevivência sem ânimo, sem vontade e sem objectivos. O peito arde e queima. Sinto-me sufocado. Para mim a vida perdeu o sentido.