
Deito-me para dormir. Mais uma noite em que o sono foge,
como um sábio da ignorância. É tão difícil descansar ultimamente. Aquelas palavras
atormentam a minha cabeça. A tristeza instalou-se de tal maneira no meu peito
que desencadeia constantemente uma avassaladora inundação nos meus olhos. Em cada
dia que passa fico mais sozinho. Estou cada vez mais a afastar-me do mundo.
Mais que nunca, agora todos me olham como quem olha para um monstro abençoado
pela maldição da diferença. Vejo defeito em tudo o que outrora fora motivo de
um sincero e verdadeiro sorriso no meu rosto: a lua já não brilha tão
intensamente, a comida perdeu o sabor, o pôr-do-sol já nada mais significa que
um ritual rotineiro tal como tantos outros, os meus sonhos são agora pesadelos...
Cada vez mais me torno num corpo sem alma, um corpo a quem cortaram os membros
e uma alma à qual impossibilitaram de flutuar na imensidão do vazio. Acho até
que esqueci como viver; agora só há lugar para uma sobrevivência sem ânimo, sem
vontade e sem objectivos. O peito arde e queima. Sinto-me sufocado. Para mim a
vida perdeu o sentido.